Este trabalho faz uma breve viagem pelas três correntes do pensamento ocidental que mais influenciaram a sociologia, expressas através dos estudos e análises de Émille Durkheim, Karl Marx e Max Weber. Pretende apresentar um panorama geral da forma como esses três teóricos interpretam a sociedade capitalista e sua visão da educação e da instituição escolar.
ÉMILE DURKHEIM E A REAFIRMAÇÃO DO CAPITALISMO
Durkheim
bebeu fartamente na fonte positivista. Seus estudos vão ter “como foco
principal descobrir as leis de funcionamento da sociedade” (Figueiró,
2001:36). Para ele, descobrir as leis gerais da sociedade tinha como objetivo
ajudar a ordenar as relações sociais. Portanto, o pensamento de Durkheim é um
pensamento de reafirmação do capitalismo como ordem natural e conseqüente
evolução da humanidade. Durkheim pode ser considerado um dos maiores teóricos
do capitalismo no campo da sociologia.
Como
positivista, Durkheim concordava que a sociedade era um corpo orgânico. Mas
acrescentou algo novo ao conceito de sociedade. Concluiu que ela cria uma
imagem de si mesma. Ao construir valores, regras e formas de pensar e agir
coletivos, homens e mulheres enquanto grupo orgânico, enquanto sociedade, criam
o que Durkheim chama de representações
coletivas.
As representações coletivas
então, são exteriores ao indivíduo. As pessoas se adequam a esse conjunto de
normas e valores. A sociedade passa a se impor, já que tais normas e valores já
estavam dados anteriormente e os indivíduos precisam se adaptar a eles.
Durkheim argumenta que:
“o
devoto, ao nascer, encontra prontas as crenças e as práticas da vida religiosa,
existindo antes dele, é porque existem foram dele. O sistema de sinais de que
me sirvo para exprimir pensamentos, o sistema de moedas que emprego para pagar
dívidas, os instrumentos de crédito que utilizo nas minhas relações comerciais,
as práticas seguidas na profissão, etc. funcionam independente do uso que delas
faço”
(Durkheim apud Canella, 2001:59).
Durkheim era filho legítimo do
capitalismo que agora se consolidava. Acreditava na coesão social e na
manutenção da ordem para que o progresso da sociedade pudesse ter lugar. Visto
por um outro ângulo: para a ordem e o progresso seria necessária uma coesão
social. Este consenso social permitiria a harmonia da sociedade.
Para Durkheim, um dos princípios da
vida social é a solidariedade. Em sua interpretação, as sociedades
pré-capitalistas tinham o que ele chamava de solidariedade mecânica, que
pode ser traduzida da seguinte maneira:
“(...)
consciência coletiva forte, típica de sociedades pré-capitalistas. Os
indivíduos (...) seguiam as regras sociais cegamente, de forma mecânica e
podiam se manter autônomos e independentes em relação a outros grupos. (...) O
consenso se manifesta na semelhença entre os indivíduos” (Figueiró, 2001:37).
Já as sociedades industriais
apresentam, de acordo com o autor francês, uma outra espécie de solidariedade,
a orgânica. Este tipo de solidariedade pode ser assim definido:
“(...)
diminuição da consciência coletiva, típica das sociedades capitalistas. A
divisão social do trabalho é acelerada e espalhada pelos setores econômicos da
sociedade (...). A solidariedade poderia se romper, mas é assegurada pela interdependência
dos indivíduos, mantendo, assim, os laços sociais” (Figueiró, 2001:37).
O método de interpretação
desenvolvido por Durkheim dá relevante valor ao estudo do que chamou de fatos
sociais. O fato social é definido por ele como:
“(...) toda maneira de fazer, fixa ou não,
suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, ou então que é
geral em toda a extensão de uma dada sociedade, embora tenha existência
própria, independente de suas manifestações individuais”
(Durkheim apud Figueiró, 2001:39).
Para vários autores Durkheim é o fundador da sociologia.
É ele, também, o primeiro sociólogo a promover estudos sistematizados no campo
educacional e, por isso mesmo, suas teorias ressaltaram a importância da escola
como instituição social.
Como educação ele entende a prática cotidiana e
permanente das gerações mais velhas para as gerações mais novas. Tanto na
formalidade da instituição escolar quanto na informalidade familiar acontece o
ato educativo. Educar, portanto, é uma ação ininterrupta que acontece em todos
os momentos da vida.
Já a pedagogia tem, para Durkheim, um sentido de
sistematização teórica que objetiva a prática educativa. O pensador dá para a
pedagogia a finalidade não apenas de compreender a educação, mas também de
apontar caminhos para o ato de educar. “Seu objetivo (o da pedagogia) não é o de descrever ou explicar o que é ou o que
tem sido, mas de determinar o que deve ser” (Durkheim apud
Figueiró, 2001:41), afirma Durkheim.
Durkheim
ressalta a importância da sociologia na educação. Para ele, há uma interação
significativa ente escola e sociedade. A escola seria um reflexo das relações
sociais postas. Nesta lógica, quanto mais se compreende os mecanismos da
sociedade, mais se pode conhecer esse pequeno universo chamado escola.
MARX E A
NEGAÇÃO DO CAPITALISMO
Ao
contrário do pensador francês Émille Durkheim, a produção teórica do alemão
Karl Marx (1818-83) tinha como base a negação do capitalismo. Mas além da
crítica à sociedade, pretendia uma ação para transformar as relações sociais
postas. Marx, inclusive, marca uma ruptura no pensamento filosófico
ocidental. Para ele, até então os
filósofos sempre tinham tentado interpretar o mundo, ao invés de modificá-lo.
Marx vai na contramão deste conceito de pura e simples interpretação das coisas
e propõe uma ação sobre a realidade. “O pensamento de Marx tem, portanto, um
objetivo prático e político” (Gaarder, 2000:418).
Outra
grande diferença entre Marx e Durkheim é que o primeiro não concebia a
sociedade como algo exterior ao indivíduo e que portanto tem uma vida própria
que pudesse ser estudada e analisada separadamente. Para Karl Marx, as relações
sociais eram históricas, isto é, fruto das relações de mulheres e homens e
destes com a natureza.
Marx
desenvolve estudos importantes sobre o trabalho. Trabalho entendido como o agir
humano sobre a natureza para produzir sua sobrevivência. A partir daí vai se
deter numa aprofundada análise da sociedade capitalista. Da Alemanha para a
França e desta para a Inglaterra[1],
Karl Marx e o companheiro inseparável Friedrich Engels dissecam a sociedade em
que vivem esse propõem a compreender fenômenos e a conceituar elementos
importantes dessa sociedade. Entre eles o trabalho assalariado, a força de
trabalho, a mais valia, a propriedade privada dos meios de produção, as
contradições próprias da relação capitalista (como o antagonismo entre duas
classes principais, burgueses e proletários, e as crises cíclicas do
capitalismo), a produção não planejada, miséria de amplos setores da sociedade,
esgotamento dos recursos naturais e diversos outros.
Pensador
militante, propunha o fim da sociedade de classe. Foi um dos fundadores da 1ª
Internacional Comunista – a primeira grande organização dos trabalhadores
em nível mundial com vistas à uma revolução social. Propunha ainda uma
sociedade onde os meios de produção (fábricas, comércios e propriedades
agrícolas) fossem coletivos. Para isso, seria necessário um estágio de tomada
de poder por parte dos trabalhadores, chamado de sociedade socialista.
São
contundentes as palavras finais do documento público produzido pela 1ª
Internacional – intitulado Manifesto Comunista – e cuja
redação coube a Marx e Engels:
“Os comunistas não se rebaixam
a dissimular suas opiniões e seus fins. Proclamam abertamente que seus
objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem
social existente. Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução
comunista! Os proletários não têm a perder a não ser suas cadeias. Têm um mundo
a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!” (Marx e Engels, 1990: 64).
Como
não se pode falar de Durkheim sem falar dos positivistas, não é possível
entender o pensamento de Marx sem conhecer a dialética do também alemão Georg
Wilhelm Friedrich Hegel.
A
diferença que Marx vai estabelecer em relação a Hegel é que este último era
idealista e o primeiro materialista. Ou seja, para Hegel eram os homens e
mulheres, através de sua forma de pensar e ver as coisas, que influenciavam
determinantemente o mundo real. Marx, mesmo utilizando todas as categorias da
dialética, inverte o pensamento hegeliano e diz justamente o contrário: são as
condições materiais que vão determinar a forma de pensar e agir de homens e
mulheres.
Marx,
porém, não negava que o pensamento pudesse influenciar as relações concretas e
sociais da humanidade. Mas afirmava que, em última instância, prevalecem as
condições materiais como determinantes das condições espirituais. É por isto
que o pensamento de Marx é chamado de materialista dialético e
histórico.
Para
viver sob determinada relação social de produção e
justificar o modo de produção vigente,
mulheres e homens criam regras e normas (um corpo jurídico), definem
como vão organizar, distribuir e hierarquizar o poder (uma forma
política) e constroem maneiras de pensar e agir muito particular e diretamente
relacionadas ao modo de produção a que
pertencem (a religião, a moral, a arte, a filosofia...). A este conjunto Marx
chamou de superestrutura da sociedade.
Em
suma, a estrutura econômica é que determina em última instância a superestrutura.
Marx, entretanto, admite uma inter-relação de influências entre essas duas
camadas, escapando assim do erro do determinismo econômico.
Marx
afirmava ainda que o capitalismo trazia suas próprias contradições internas. O germe de sua destruição, como
qualificou. Uma dessas contradições seria o antagonismo e a relação
inconciliável entre duas importantes e fundamentais classes deste modo de
produção: os burgueses,
proprietários dos meios de produção, e os trabalhadores,
homens livres cuja única coisa que possuem é sua força de trabalho que vendem
ao burguês[2].
Como são os burgueses quem detêm a hegemonia do poder econômico, vão controlar
também o poder político e tanto as leis quanto o imaginário social tendem a
manter e justificar a ordem de relações postas na sociedade. Quando as formas
jurídicas e políticas, bem como instituições de reprodução da ideologia (as
escolas, as igrejas etc.) não representam mais a forma econômica da sociedade,
segundo Marx, abre-se um período de crise e de revoluções sociais.
A natureza deste trabalho
não permite a dissertação sobre conceitos como equivalência, trabalho
assalariado, mais-valia, exploração da força de trabalho e
outros, tão fundamentais para a compreensão da crítica que Marx faz do
capitalismo. Porém, é possível dizer que seus estudos vão além das formas
aparentes que este modo social de produção se apresenta e trazem à tona os
mecanismos de concentração de riquezas, criação do que chamou de uma “falsa
consciência social” e de alienação da classe subjugada nesta relação (os
trabalhadores). Por propor um engajamento do pensador com a transformação
social, é que Karl Marx não se limitou apenas a interpretar ou “reformar” a
sociedade. Mais do que um grande estudioso do capitalismo, foi também seu
ferrenho opositor.
Ao contrário de Durkheim, Marx não produziu estudos
sistematizados sobre a educação e a escola. As referências que faz ao processo
educativo e à instituição escolar estão dispersas em suas obras. E nem poderia
ser diferente. Seu objeto de estudo era a sociedade capitalista em toda a sua
riqueza de complexidades e relações, com o claro objetivo da transformação
social. O próprio método de análise utilizado por Marx o levava a entender a
sociedade como um todo constituído de inúmeras partes em relacionamento
recíproco e constante transformação. Por isso, não concebia o estudo de
qualquer uma dessas partes isoladamente, sem a influência de outras.
Pode-se
entender que Marx não reconhecia a escola como instrumento que pudesse
contribuir para a desalienação da classe trabalhadora e para a revolução
social. Por outro lado, Marx levava em conta a importância do papel da educação
na transformação social. Esta aparente contradição pode ser detectada na
seguinte argumentação:
“(...)
de um lado, é preciso que as circunstâncias sociais mudem para que se
estabeleça um sistema adequado de educação, mas, de outro lado, é necessário um
sistema educacional adequado para produzir-se a mudança das circunstâncias
sociais” (Marx Apud Canella, 2001:77).
Talvez
essa relativização das afirmações de Marx possam ser interpretadas a partir do
fato dele não se referir diretamente à instituição escolar, mas sim a um
processo mais amplo de socialização do conhecimento.
Tira-se,
ainda, dos escritos de Marx, sua forma de entender como deveria ser a escola:
“A
escola não pode deixar de se configurar a não ser como processo educativo em
que coincidem a ciência e o trabalho; uma ciência não meramente especulativa,
mas operativa, porque, sendo operativa, reflete a essência do homem, sua
capacidade de domínio sobre a natureza; um trabalho não destinado a adquirir
habilidades parciais do tipo artesanal, porém o mais articulado possível, pelo
menos em perspectiva, à tecnologia da fábrica, a mais moderna forma de
produção” (Marx apud Figueiró, 2001:51).
A
perspectiva da educação, em Marx, parece indicar para uma formação que busque o
desenvolvimento completo do ser humano. Uma formação do ser onilateral. Na leitura de Mário
Alighiero Manacorda essa onilateralidade
pode ser definida como:
“A
chegada histórica do homem a uma totalidade de capacidades produtivas e, ao
mesmo tempo, a uma totalidade de capacidades de consumo de prazer, em que se
deve considerar sobretudo o gozo daqueles bens espirituais, além dos materiais,
e dos quais os trabalhadores têm estado excluídos em conseqüência da divisão do
trabalho” (Manacorda apud Figueiró, 2001:51).
Karl
Marx jamais teve a pretensão de empreender uma análise puramente sociológica da
realidade. E nem poderia ser diferente. Suas premissas teóricas, calcadas no
materialismo histórico e dialético, o levam a compreender a realidade como a
totalidade de fatores que se relacionam e mantêm uma interdependência entre si.
Vale aqui emprestar a crítica que o argentino Atílio Boron faz aos que, segundo
ele, tentam fragmentar as análises de Marx e, assim, as converterem em análises
autônomas “suscetíveis de serem compreendidas e explicadas por uma disciplina
especializada”:
“Assim
como não há uma teoria econômica do capitalismo em Marx tampouco existe uma
‘teoria sociológica’ da sociedade burguesa. O que existe é um corpus teórico que unifica diversas
perspectivas de análise sobre a sociedade contemporânea” (Boron, 1997:107).
Portanto,
quando falamos em uma “teoria sociológica” de Marx devemos levar em conta que
se trata, apenas, de uma distinção puramente de caráter analítico, cuja
intenção é facilitar a compreensão de um fenômeno específico, sem esquecer que
“nenhum aspecto ou dimensão da realidade
social pode ser compreendido à margem – ou com independência – da totalidade na
qual se constitui” (Boron, 1997:106).
WEBER E A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA
Se Émille Durkheim e Karl Marx propunham um estudo da
sociedade para, em maior ou menor grau, interferir nela (o primeiro para mantê-la
e o segundo para transformá-la radicalmente), o alemão Max Weber (1864-1920)
promoveu suas análises limitando-se à compreensão das relações sociais. Seu
próprio conceito de sociologia admitia esse aspecto puramente interpretativo:
“Chamamos
de sociologia (...) uma ciência cujo objetivo é compreender pela interpretação
a atividade social, para, em seguida explicar causalmente o desenvolvimento e
os efeitos dessa atividade” (Weber
apud Freund, 1987:71).
Como
para Max Weber o papel dos indivíduos era relevante nas relações estabelecidas
na sociedade, ele procura compreender qual o sentido que o ator ou os atores
sociais atribuem às suas condutas. Afirmava, ainda, que a realidade é algo
extremamente complexo. Somente seria possível conhecer fragmentos dessa
realidade e, por isso, “cada cientista
vai dar um enfoque diferenciado a partir do recorte feito” (Figueiró,
2001:57) dessa realidade. Chama-se a corrente de pensamento de Weber de Sociologia Compreensiva.
O
objetivo de Max Weber foi estudar a sociedade capitalista. Ressaltou dois
aspectos fundamentais no capitalismo: a racionalidade
e a burocratização extremas. Sua
crítica foi ferrenha à burocratização. O fato de uma elite se perpetuar no
poder e deter o controle do Estado estaria ligado a uma institucionalização da
sociedade, que radicalizava a burocracia e a hierarquização. Ou seja, sua
preocupação era “com a burocracia
enquanto estratégia de dominação” (Canella, 2001:89).
O
objeto de estudo de Weber foi a ação
social ou atividade social. O
próprio Weber traduz atividade social
como:
“(...)
um comportamento humano (pouco importa que se trate de um ato exterior ou
interior, de uma omissão ou de uma tolerância), sempre que o agente ou os
agentes lhe comunicam um sentido subjetivo” (Weber
apud Freund, 1987:78).
Ou
ainda:
“Por
atividade social entendemos a que, segundo o sentido visado, o agente ou os
agentes relacionam com o comportamento de outrem para orientar, em
conseqüência, seu desenvolvimento”
(Weber apud Freund, 1987:78).
Portanto,
as ações ou atividades sociais são dotadas de intenções por parte de seus
autores. E a ação vai se tornar social quando o ator ou os atores sociais levam
em consideração a reação de outros indivíduos. Weber classifica como relação social o fato do sentido de uma
ação social ser compartilhado por outras pessoas que não seus autores.
Tenta
fugir, Weber, da irresistível tendência a aplicar “juízos de valores” quando se
analisa um fato social. Propôs uma objetividade de análise, como explica Julien
Freund:
“Encontramos
no centro de sua sociologia a noção de atividade social, não para avaliar ou
apreciar as estruturas no sentido em que podem ser boas ou más, oportunas ou
inoportunas, porém, para compreender o mais objetivamente possível como os
homens avaliam, a apreciam, utilizam, criam e destroem as diversas relações
sociais” (Freund, 1987:68).
Weber dá, também, importância fundamental à pesquisa histórica porque para ele a vontade e o sentido dado às atividades e às relações sociais são construídos histórica e socialmente. “É somente a partir da análise do contexto histórico-social de cada indivíduo que se pode compreender a realidade social” (Figueiró, 2001:58).Para facilitar sua compreensão da realidade, Weber cria um instrumento de análise. Ele chama a esse instrumento de tipo ideal. Como nenhuma ciência é capaz de absorver o sentido real e completo dos fenômenos, ele propõe uma abstração teórica que possibilitaria ao pesquisador se aproximar do fato real criando um modelo ideal.
Julien
Freund justifica a lógica de pensamento de Max Weber e a necessidade da criação
desse instrumento com os seguintes e básicos argumentos:
“(...)
Weber rejeita a concepção antiga da ciência no sentido em que esta esteja em
condições de alcançar a substância das coisas para reuní-las em um sistema
completo, que seja o pensamento fiel de toda a realidade. A seu ver, nenhum
sistema é capaz de reproduzir integralmente a diversidade intensiva de um
fenômeno particular. Em suma, não existe conhecimento não-hipotético” (Freund, 1987:48).
E,
em seguida, explica o tipo ideal:
“O
tipo ideal é um outro momento da seleção que fazem o historiador e o sociólogo,
por abordarem necessariamente o real a partir de certos pontos de vista em
função da relação com os valores. Entretanto, esta apenas orienta o trabalho,
elimina o que pode ser desprezado; não confere ainda rigor conceitual à questão
estudada. Esse é o papel do tipo ideal”
(Freund, 1987:48-49).
Daí,
que o tipo ideal não pretende ser o
reflexo da realidade assim como ela o é – o que para Weber não é possível de
acontecer. É, sim, um instrumento que possibilita tão apenas uma sistematização
a priori que cria categorias onde o pesquisador pode “encaixar” os fenômenos
estudados para facilitar sua compreensão.
Levando
em conta a racionalização cada vez maior do pensamento humano na sociedade
capitalista, olhando para as atividades
sociais e utilizando o seu instrumento de análise, Weber constrói quatro
tipos ideais de ações: a atividade racional por finalidade
(caracterizada pela intenção do indivíduo ou grupo em atingir objetivos
anteriormente estabelecidos); atividade
racional por valor (ação do indivíduo baseada nas convicções e em
princípios do ator social, sem levar em conta as conseqüências presumidas); atividade afetiva (determinada por ações
emotivas ou de ordem instintiva); e atividade
tradicional (que tem como base ações orientadas em costumes ou hábitos
tradicionais).
Utilizando
esse instrumental, Weber conclui que a existência da sociedade é possível
porque nas relações cotidianas homens e mulheres praticam uma espécie de
negociação dessas ações. Por isso, para ele, a sociedade não é algo externo ao
indivíduo nem tampouco tem vida própria. As relações sociais são vividas tendo
como temas interesses particulares (individuais ou de grupos), conflitos e
dominações.
Weber,
ao ressaltar a burocracia na sociedade capitalista, preocupou-se, em especial,
“com a burocracia enquanto estratégia de
dominação” (Canella, 2001:89). Concluiu que a base da organização social
seria a dominação. Ou, olhando por outro ângulo, a submissão de um grupo a um
mandato.
Para
tentar compreender melhor como se dá a dominação através da burocratização,
utilizou novamente os tipos ideais
como instrumento de análise. Criou, então, três categorias para facilitar essa
compreensão, a que ele chama de tipos
puros de dominação legítima.
Uma
destas categorias é a dominação racional
(legal). É caracterizada pela
obediência às leis e normas criadas na sociedade. A dominação tradicional tem como base a obediência a valores e
costumes tradicionais. Já a dominação
carismática tem seu fundamento na confiança e na valorização de dotes
intelectuais, capacidade de comunicação ou em características consideradas
místicas ou mágicas de uma personagem.
É
por isso que Weber é considerado um pesquisador extremamente metódico. Mesmo
afirmando que a realidade, em sua totalidade, é de difícil ou impossível
compreensão, procura colocar cada fenômeno estudado dentro de uma categoria
previamente estabelecida.
Max Weber caracterizou a escola como instituição de
dominação. De novo, aqui, vai buscar nos tipos
ideais um instrumento para entender a instituição escolar. Tentou achar,
inclusive, uma inter-relação entre os tipos
ideais de dominação e os tipos
ideais de educação.
BIBLIOGRAFIA
BORON,
Atílio. Friedrich Engel e a teoria marxista da política. In: Revista Práxis,
nº 09, Ano IV, Julho-Agosto-Setembro/1997.
CANELLA,
Francisco e outros. Sociologia: Educação à Distância–Caderno Pedagógico
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FIGUEIRÓ,
Ana Lúcia e outros. Sociologia: Educação à Distância-Caderno Pedagógico
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FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Fonte Universitária, 1987.
GAARDER,
Jostein. O Mundo de Sofia. São Paulo: Schwarcz, 2000.
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto
Comunista. São Paulo:
CPV, 1990.
TRAGTENBERG, Maurício. Sobre Educação, Política e
Sindicalismo. São Paulo: Cortez Editora, 1990.
[1] País que
apresentava o maior desenvolvimento capitalista da época, que, por isso mesmo,
proporcionou a Marx uma riqueza de elementos para o estudo das relações sociais
de produção.
[2] A
burguesia não forjou somente as armas que lhe darão morte; produziu também os
homens que manejarão essas armas – os operários modernos, os proletários.
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