sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO

Este trabalho faz uma breve viagem pelas três correntes do pensamento ocidental que mais influenciaram a sociologia, expressas através dos estudos e análises de Émille DurkheimKarl Marx e Max Weber. Pretende apresentar um panorama geral da forma como esses três teóricos interpretam a sociedade capitalista e sua visão da educação e da instituição escolar.

ÉMILE DURKHEIM E A REAFIRMAÇÃO DO CAPITALISMO

Durkheim bebeu fartamente na fonte positivista. Seus estudos vão ter “como foco principal descobrir as leis de funcionamento da sociedade” (Figueiró, 2001:36). Para ele, descobrir as leis gerais da sociedade tinha como objetivo ajudar a ordenar as relações sociais. Portanto, o pensamento de Durkheim é um pensamento de reafirmação do capitalismo como ordem natural e conseqüente evolução da humanidade. Durkheim pode ser considerado um dos maiores teóricos do capitalismo no campo da sociologia. 
Como positivista, Durkheim concordava que a sociedade era um corpo orgânico. Mas acrescentou algo novo ao conceito de sociedade. Concluiu que ela cria uma imagem de si mesma. Ao construir valores, regras e formas de pensar e agir coletivos, homens e mulheres enquanto grupo orgânico, enquanto sociedade, criam o que Durkheim chama de representações coletivas.
As representações coletivas então, são exteriores ao indivíduo. As pessoas se adequam a esse conjunto de normas e valores. A sociedade passa a se impor, já que tais normas e valores já estavam dados anteriormente e os indivíduos precisam se adaptar a eles. Durkheim argumenta que:

“o devoto, ao nascer, encontra prontas as crenças e as práticas da vida religiosa, existindo antes dele, é porque existem foram dele. O sistema de sinais de que me sirvo para exprimir pensamentos, o sistema de moedas que emprego para pagar dívidas, os instrumentos de crédito que utilizo nas minhas relações comerciais, as práticas seguidas na profissão, etc. funcionam independente do uso que delas faço” (Durkheim apud Canella, 2001:59).

Durkheim era filho legítimo do capitalismo que agora se consolidava. Acreditava na coesão social e na manutenção da ordem para que o progresso da sociedade pudesse ter lugar. Visto por um outro ângulo: para a ordem e o progresso seria necessária uma coesão social. Este consenso social permitiria a harmonia da sociedade.
Para Durkheim, um dos princípios da vida social é a solidariedade. Em sua interpretação, as sociedades pré-capitalistas tinham o que ele chamava de solidariedade mecânica, que pode ser traduzida da seguinte maneira:

“(...) consciência coletiva forte, típica de sociedades pré-capitalistas. Os indivíduos (...) seguiam as regras sociais cegamente, de forma mecânica e podiam se manter autônomos e independentes em relação a outros grupos. (...) O consenso se manifesta na semelhença entre os indivíduos” (Figueiró, 2001:37).

Já as sociedades industriais apresentam, de acordo com o autor francês, uma outra espécie de solidariedade, a orgânica. Este tipo de solidariedade pode ser assim definido:

“(...) diminuição da consciência coletiva, típica das sociedades capitalistas. A divisão social do trabalho é acelerada e espalhada pelos setores econômicos da sociedade (...). A solidariedade poderia se romper, mas é assegurada pela interdependência dos indivíduos, mantendo, assim, os laços sociais” (Figueiró, 2001:37).

O método de interpretação desenvolvido por Durkheim dá relevante valor ao estudo do que chamou de fatos sociais. O fato social é definido por ele como:

“(...) toda maneira de fazer, fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, ou então que é geral em toda a extensão de uma dada sociedade, embora tenha existência própria, independente de suas manifestações individuais” (Durkheim apud Figueiró, 2001:39).

Para vários autores Durkheim é o fundador da sociologia. É ele, também, o primeiro sociólogo a promover estudos sistematizados no campo educacional e, por isso mesmo, suas teorias ressaltaram a importância da escola como instituição social.
Como educação ele entende a prática cotidiana e permanente das gerações mais velhas para as gerações mais novas. Tanto na formalidade da instituição escolar quanto na informalidade familiar acontece o ato educativo. Educar, portanto, é uma ação ininterrupta que acontece em todos os momentos da vida.
Já a pedagogia tem, para Durkheim, um sentido de sistematização teórica que objetiva a prática educativa. O pensador dá para a pedagogia a finalidade não apenas de compreender a educação, mas também de apontar caminhos para o ato de educar. “Seu objetivo (o da pedagogia) não é o de descrever ou explicar o que é ou o que tem sido, mas de determinar o que deve ser” (Durkheim apud Figueiró, 2001:41), afirma Durkheim.
Durkheim ressalta a importância da sociologia na educação. Para ele, há uma interação significativa ente escola e sociedade. A escola seria um reflexo das relações sociais postas. Nesta lógica, quanto mais se compreende os mecanismos da sociedade, mais se pode conhecer esse pequeno universo chamado escola.

MARX E A NEGAÇÃO DO CAPITALISMO


Ao contrário do pensador francês Émille Durkheim, a produção teórica do alemão Karl Marx (1818-83) tinha como base a negação do capitalismo. Mas além da crítica à sociedade, pretendia uma ação para transformar as relações sociais postas. Marx, inclusive, marca uma ruptura no pensamento filosófico ocidental.  Para ele, até então os filósofos sempre tinham tentado interpretar o mundo, ao invés de modificá-lo. Marx vai na contramão deste conceito de pura e simples interpretação das coisas e propõe uma ação sobre a realidade. “O pensamento de Marx tem, portanto, um objetivo prático e político” (Gaarder, 2000:418).
Outra grande diferença entre Marx e Durkheim é que o primeiro não concebia a sociedade como algo exterior ao indivíduo e que portanto tem uma vida própria que pudesse ser estudada e analisada separadamente. Para Karl Marx, as relações sociais eram históricas, isto é, fruto das relações de mulheres e homens e destes com a natureza.
Marx desenvolve estudos importantes sobre o trabalho. Trabalho entendido como o agir humano sobre a natureza para produzir sua sobrevivência. A partir daí vai se deter numa aprofundada análise da sociedade capitalista. Da Alemanha para a França e desta para a Inglaterra[1], Karl Marx e o companheiro inseparável Friedrich Engels dissecam a sociedade em que vivem esse propõem a compreender fenômenos e a conceituar elementos importantes dessa sociedade. Entre eles o trabalho assalariado, a força de trabalho, a mais valia, a propriedade privada dos meios de produção, as contradições próprias da relação capitalista (como o antagonismo entre duas classes principais, burgueses e proletários, e as crises cíclicas do capitalismo), a produção não planejada, miséria de amplos setores da sociedade, esgotamento dos recursos naturais e diversos outros.
Pensador militante, propunha o fim da sociedade de classe. Foi um dos fundadores da 1ª Internacional Comunista – a primeira grande organização dos trabalhadores em nível mundial com vistas à uma revolução social. Propunha ainda uma sociedade onde os meios de produção (fábricas, comércios e propriedades agrícolas) fossem coletivos. Para isso, seria necessário um estágio de tomada de poder por parte dos trabalhadores, chamado de sociedade socialista.
São contundentes as palavras finais do documento público produzido pela 1ª Internacional – intitulado Manifesto Comunista – e cuja redação coube a Marx e Engels:

“Os comunistas não se rebaixam a dissimular suas opiniões e seus fins. Proclamam abertamente que seus objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução comunista! Os proletários não têm a perder a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos! (Marx e Engels, 1990: 64).

Como não se pode falar de Durkheim sem falar dos positivistas, não é possível entender o pensamento de Marx sem conhecer a dialética do também alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel.
A diferença que Marx vai estabelecer em relação a Hegel é que este último era idealista e o primeiro materialista. Ou seja, para Hegel eram os homens e mulheres, através de sua forma de pensar e ver as coisas, que influenciavam determinantemente o mundo real. Marx, mesmo utilizando todas as categorias da dialética, inverte o pensamento hegeliano e diz justamente o contrário: são as condições materiais que vão determinar a forma de pensar e agir de homens e mulheres.
Marx, porém, não negava que o pensamento pudesse influenciar as relações concretas e sociais da humanidade. Mas afirmava que, em última instância, prevalecem as condições materiais como determinantes das condições espirituais. É por isto que o pensamento de Marx é chamado de materialista dialético e histórico.
Para viver sob determinada relação social de produção e justificar o modo de produção vigente, mulheres e homens criam regras e normas (um corpo jurídico), definem como vão organizar, distribuir e hierarquizar o poder (uma forma política) e constroem maneiras de pensar e agir muito particular e diretamente relacionadas ao modo de produção a que pertencem (a religião, a moral, a arte, a filosofia...). A este conjunto Marx chamou de superestrutura da sociedade.
Em suma, a estrutura econômica é que determina em última instância a superestrutura. Marx, entretanto, admite uma inter-relação de influências entre essas duas camadas, escapando assim do erro do determinismo econômico.
Marx afirmava ainda que o capitalismo trazia suas próprias contradições internas. O germe de sua destruição, como qualificou. Uma dessas contradições seria o antagonismo e a relação inconciliável entre duas importantes e fundamentais classes deste modo de produção: os burgueses, proprietários dos meios de produção, e os trabalhadores, homens livres cuja única coisa que possuem é sua força de trabalho que vendem ao burguês[2]. Como são os burgueses quem detêm a hegemonia do poder econômico, vão controlar também o poder político e tanto as leis quanto o imaginário social tendem a manter e justificar a ordem de relações postas na sociedade. Quando as formas jurídicas e políticas, bem como instituições de reprodução da ideologia (as escolas, as igrejas etc.) não representam mais a forma econômica da sociedade, segundo Marx, abre-se um período de crise e de revoluções sociais.
A natureza deste trabalho não permite a dissertação sobre conceitos como equivalência, trabalho assalariado, mais-valia, exploração da força de trabalho e outros, tão fundamentais para a compreensão da crítica que Marx faz do capitalismo. Porém, é possível dizer que seus estudos vão além das formas aparentes que este modo social de produção se apresenta e trazem à tona os mecanismos de concentração de riquezas, criação do que chamou de uma “falsa consciência social” e de alienação da classe subjugada nesta relação (os trabalhadores). Por propor um engajamento do pensador com a transformação social, é que Karl Marx não se limitou apenas a interpretar ou “reformar” a sociedade. Mais do que um grande estudioso do capitalismo, foi também seu ferrenho opositor.
Ao contrário de Durkheim, Marx não produziu estudos sistematizados sobre a educação e a escola. As referências que faz ao processo educativo e à instituição escolar estão dispersas em suas obras. E nem poderia ser diferente. Seu objeto de estudo era a sociedade capitalista em toda a sua riqueza de complexidades e relações, com o claro objetivo da transformação social. O próprio método de análise utilizado por Marx o levava a entender a sociedade como um todo constituído de inúmeras partes em relacionamento recíproco e constante transformação. Por isso, não concebia o estudo de qualquer uma dessas partes isoladamente, sem a influência de outras.
Pode-se entender que Marx não reconhecia a escola como instrumento que pudesse contribuir para a desalienação da classe trabalhadora e para a revolução social. Por outro lado, Marx levava em conta a importância do papel da educação na transformação social. Esta aparente contradição pode ser detectada na seguinte argumentação:

“(...) de um lado, é preciso que as circunstâncias sociais mudem para que se estabeleça um sistema adequado de educação, mas, de outro lado, é necessário um sistema educacional adequado para produzir-se a mudança das circunstâncias sociais” (Marx Apud Canella, 2001:77).

Talvez essa relativização das afirmações de Marx possam ser interpretadas a partir do fato dele não se referir diretamente à instituição escolar, mas sim a um processo mais amplo de socialização do conhecimento.
Tira-se, ainda, dos escritos de Marx, sua forma de entender como deveria ser a escola:

“A escola não pode deixar de se configurar a não ser como processo educativo em que coincidem a ciência e o trabalho; uma ciência não meramente especulativa, mas operativa, porque, sendo operativa, reflete a essência do homem, sua capacidade de domínio sobre a natureza; um trabalho não destinado a adquirir habilidades parciais do tipo artesanal, porém o mais articulado possível, pelo menos em perspectiva, à tecnologia da fábrica, a mais moderna forma de produção” (Marx apud Figueiró, 2001:51).

A perspectiva da educação, em Marx, parece indicar para uma formação que busque o desenvolvimento completo do ser humano. Uma formação do ser onilateral. Na leitura de Mário Alighiero Manacorda essa onilateralidade pode ser definida como:

“A chegada histórica do homem a uma totalidade de capacidades produtivas e, ao mesmo tempo, a uma totalidade de capacidades de consumo de prazer, em que se deve considerar sobretudo o gozo daqueles bens espirituais, além dos materiais, e dos quais os trabalhadores têm estado excluídos em conseqüência da divisão do trabalho” (Manacorda apud Figueiró, 2001:51).

Karl Marx jamais teve a pretensão de empreender uma análise puramente sociológica da realidade. E nem poderia ser diferente. Suas premissas teóricas, calcadas no materialismo histórico e dialético, o levam a compreender a realidade como a totalidade de fatores que se relacionam e mantêm uma interdependência entre si. Vale aqui emprestar a crítica que o argentino Atílio Boron faz aos que, segundo ele, tentam fragmentar as análises de Marx e, assim, as converterem em análises autônomas “suscetíveis de serem compreendidas e explicadas por uma disciplina especializada”:

“Assim como não há uma teoria econômica do capitalismo em Marx tampouco existe uma ‘teoria sociológica’ da sociedade burguesa. O que existe é um corpus teórico que unifica diversas perspectivas de análise sobre a sociedade contemporânea” (Boron, 1997:107).

Portanto, quando falamos em uma “teoria sociológica” de Marx devemos levar em conta que se trata, apenas, de uma distinção puramente de caráter analítico, cuja intenção é facilitar a compreensão de um fenômeno específico, sem esquecer que “nenhum aspecto ou dimensão da realidade social pode ser compreendido à margem – ou com independência – da totalidade na qual se constitui” (Boron, 1997:106).

WEBER E A SOCIOLOGIA COMPREENSIVA


Se Émille Durkheim e Karl Marx propunham um estudo da sociedade para, em maior ou menor grau, interferir nela (o primeiro para mantê-la e o segundo para transformá-la radicalmente), o alemão Max Weber (1864-1920) promoveu suas análises limitando-se à compreensão das relações sociais. Seu próprio conceito de sociologia admitia esse aspecto puramente interpretativo:

“Chamamos de sociologia (...) uma ciência cujo objetivo é compreender pela interpretação a atividade social, para, em seguida explicar causalmente o desenvolvimento e os efeitos dessa atividade” (Weber apud Freund, 1987:71).

Como para Max Weber o papel dos indivíduos era relevante nas relações estabelecidas na sociedade, ele procura compreender qual o sentido que o ator ou os atores sociais atribuem às suas condutas. Afirmava, ainda, que a realidade é algo extremamente complexo. Somente seria possível conhecer fragmentos dessa realidade e, por isso, “cada cientista vai dar um enfoque diferenciado a partir do recorte feito” (Figueiró, 2001:57) dessa realidade. Chama-se a corrente de pensamento de Weber de Sociologia Compreensiva.
O objetivo de Max Weber foi estudar a sociedade capitalista. Ressaltou dois aspectos fundamentais no capitalismo: a racionalidade e a burocratização extremas. Sua crítica foi ferrenha à burocratização. O fato de uma elite se perpetuar no poder e deter o controle do Estado estaria ligado a uma institucionalização da sociedade, que radicalizava a burocracia e a hierarquização. Ou seja, sua preocupação era “com a burocracia enquanto estratégia de dominação” (Canella, 2001:89).
O objeto de estudo de Weber foi a ação social ou atividade social. O próprio Weber traduz atividade social como:

“(...) um comportamento humano (pouco importa que se trate de um ato exterior ou interior, de uma omissão ou de uma tolerância), sempre que o agente ou os agentes lhe comunicam um sentido subjetivo” (Weber apud Freund, 1987:78).
Ou ainda:

“Por atividade social entendemos a que, segundo o sentido visado, o agente ou os agentes relacionam com o comportamento de outrem para orientar, em conseqüência, seu desenvolvimento” (Weber apud Freund, 1987:78).

Portanto, as ações ou atividades sociais são dotadas de intenções por parte de seus autores. E a ação vai se tornar social quando o ator ou os atores sociais levam em consideração a reação de outros indivíduos. Weber classifica como relação social o fato do sentido de uma ação social ser compartilhado por outras pessoas que não seus autores.
Tenta fugir, Weber, da irresistível tendência a aplicar “juízos de valores” quando se analisa um fato social. Propôs uma objetividade de análise, como explica Julien Freund:

“Encontramos no centro de sua sociologia a noção de atividade social, não para avaliar ou apreciar as estruturas no sentido em que podem ser boas ou más, oportunas ou inoportunas, porém, para compreender o mais objetivamente possível como os homens avaliam, a apreciam, utilizam, criam e destroem as diversas relações sociais” (Freund, 1987:68).


Weber dá, também, importância fundamental à pesquisa histórica porque para ele a vontade e o sentido dado às atividades e às relações sociais são construídos histórica e socialmente. “É somente a partir da análise do contexto histórico-social de cada indivíduo que se pode compreender a realidade social” (Figueiró, 2001:58).Para facilitar sua compreensão da realidade, Weber cria um instrumento de análise. Ele chama a esse instrumento de tipo ideal. Como nenhuma ciência é capaz de absorver o sentido real e completo dos fenômenos, ele propõe uma abstração teórica que possibilitaria ao pesquisador se aproximar do fato real criando um modelo ideal.

Julien Freund justifica a lógica de pensamento de Max Weber e a necessidade da criação desse instrumento com os seguintes e básicos argumentos: 


“(...) Weber rejeita a concepção antiga da ciência no sentido em que esta esteja em condições de alcançar a substância das coisas para reuní-las em um sistema completo, que seja o pensamento fiel de toda a realidade. A seu ver, nenhum sistema é capaz de reproduzir integralmente a diversidade intensiva de um fenômeno particular. Em suma, não existe conhecimento não-hipotético” (Freund, 1987:48).


E, em seguida, explica o tipo ideal:

“O tipo ideal é um outro momento da seleção que fazem o historiador e o sociólogo, por abordarem necessariamente o real a partir de certos pontos de vista em função da relação com os valores. Entretanto, esta apenas orienta o trabalho, elimina o que pode ser desprezado; não confere ainda rigor conceitual à questão estudada. Esse é o papel do tipo ideal” (Freund, 1987:48-49).


Daí, que o tipo ideal não pretende ser o reflexo da realidade assim como ela o é – o que para Weber não é possível de acontecer. É, sim, um instrumento que possibilita tão apenas uma sistematização a priori que cria categorias onde o pesquisador pode “encaixar” os fenômenos estudados para facilitar sua compreensão.
Levando em conta a racionalização cada vez maior do pensamento humano na sociedade capitalista, olhando para as atividades sociais e utilizando o seu instrumento de análise, Weber constrói quatro tipos ideais de ações: a atividade racional por finalidade (caracterizada pela intenção do indivíduo ou grupo em atingir objetivos anteriormente estabelecidos); atividade racional por valor (ação do indivíduo baseada nas convicções e em princípios do ator social, sem levar em conta as conseqüências presumidas); atividade afetiva (determinada por ações emotivas ou de ordem instintiva); e atividade tradicional (que tem como base ações orientadas em costumes ou hábitos tradicionais).
Utilizando esse instrumental, Weber conclui que a existência da sociedade é possível porque nas relações cotidianas homens e mulheres praticam uma espécie de negociação dessas ações. Por isso, para ele, a sociedade não é algo externo ao indivíduo nem tampouco tem vida própria. As relações sociais são vividas tendo como temas interesses particulares (individuais ou de grupos), conflitos e dominações.
Weber, ao ressaltar a burocracia na sociedade capitalista, preocupou-se, em especial, “com a burocracia enquanto estratégia de dominação” (Canella, 2001:89). Concluiu que a base da organização social seria a dominação. Ou, olhando por outro ângulo, a submissão de um grupo a um mandato.
Para tentar compreender melhor como se dá a dominação através da burocratização, utilizou novamente os tipos ideais como instrumento de análise. Criou, então, três categorias para facilitar essa compreensão, a que ele chama de tipos puros de dominação legítima.
Uma destas categorias é a dominação racional (legal). É caracterizada pela obediência às leis e normas criadas na sociedade. A dominação tradicional tem como base a obediência a valores e costumes tradicionais. Já a dominação carismática tem seu fundamento na confiança e na valorização de dotes intelectuais, capacidade de comunicação ou em características consideradas místicas ou mágicas de uma personagem.
É por isso que Weber é considerado um pesquisador extremamente metódico. Mesmo afirmando que a realidade, em sua totalidade, é de difícil ou impossível compreensão, procura colocar cada fenômeno estudado dentro de uma categoria previamente estabelecida.
Max Weber caracterizou a escola como instituição de dominação. De novo, aqui, vai buscar nos tipos ideais um instrumento para entender a instituição escolar. Tentou achar, inclusive, uma inter-relação entre os tipos ideais de dominação e os tipos ideais de educação.
           

BIBLIOGRAFIA


BORON, Atílio. Friedrich Engel e a teoria marxista da política. In: Revista Práxis, nº 09, Ano IV, Julho-Agosto-Setembro/1997.
CANELLA, Francisco e outros. Sociologia: Educação à Distância–Caderno Pedagógico 1. Florianópolis: UDESC, 2001.
FIGUEIRÓ, Ana Lúcia e outros. Sociologia: Educação à Distância-Caderno Pedagógico 1. Florianópolis: UDESC, 2001.
FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Fonte Universitária, 1987.
GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia. São Paulo: Schwarcz, 2000.
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: CPV, 1990.
TRAGTENBERG, Maurício. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo: Cortez Editora, 1990.


[1] País que apresentava o maior desenvolvimento capitalista da época, que, por isso mesmo, proporcionou a Marx uma riqueza de elementos para o estudo das relações sociais de produção.
[2] A burguesia não forjou somente as armas que lhe darão morte; produziu também os homens que manejarão essas armas – os operários modernos, os proletários.


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